Quando estamos em meio à natureza, em local selvagem (ou nem tão selvagem assim), dependendo do lugar, da época e do calor, é normal nos depararmos com alguns animais cruzando nosso caminho, especialmente cobras. Muitas delas são venenosas, e uma picada de cobra pode até mesmo ser fatal. Veja nesse artigo como identificar os tipos de cobras e como agir em cada caso.


Antes de falar das cobras, é importante explicar o que são animais peçonhentos: são aqueles que possuem estruturas como ferrões ou dentes para injetar a peçonha, que é uma toxina (ou uma mistura de várias toxinas) de origem exclusivamente animal cujo objetivo é alterar o metabolismo de outro ser vivo, por motivo de defesa ou alimentação.

Diferentemente do que muitas pessoas imaginam, animais peçonhentos e venenosos não são a mesma coisa. Um animal venenoso apenas produz uma substância tóxica (veneno), mas não tem como injetá-la dentro de outro animal. Nesses casos, o envenenamento acontece de forma passiva, geralmente por toque, pressão ou ingestão do animal venenoso.

Já o animal peçonhento, como já falamos, é capaz de injetar a substância em outro ser vivo. Alguns exemplos de animais peçonhentos são aranhas, escorpiões, abelhas e cobras. Nesse artigo, abordaremos especificamente as cobras.


Como Identificar Se a Cobra é Peçonhenta

No caso de acidentes com cobra, a coisa mais importante é saber identificar se ela era peçonhenta ou não. Existem muitas formas de identificar: pelo formato da cabeça, estreitameto da cauda, etc. Mas existe uma dica que é a mais fácil e vale para todas as cobras peçonhentas, exceto a Cobra Coral Verdadeira. É simples assim:

Se a cobra for peçonhenta, ela terá um orifício (fosseta loreal)
entre os olhos e a narina.

 

Se a cobra não tiver o orifício e não for uma Cobra Coral, a picada a princípio não trará qualquer risco de vida.

No entanto é importante ficar atento ao fato que no Brasil, temos algumas espécies conhecidas como “semi-peçonhentas” (opistóglifas), com dentes inoculadores no fundo da boca. Na maioria dos casos, mesmo que uma espécie desta chegue a morder, não causa complicações médicas, porém, existem alguns casos, dependendo da espécie e da reação da pessoa, em que pode ser necessária intervenção médica para conter alguns dos sintomas, portanto, após a picada de qualquer cobra fique sempre muito atento às reações, se os sintomas não passarem procure assistência médica.  – Contribuição Diego Cavalheri.

Se você identificar que a cobra é venenosa, será preciso procurar ajuda médica com urgência. Nesse caso, é importante tentar identificar qual o gênero de cobra peçonhenta (Jararaca, Cascavel, Surucucu ou Coral Verdadeira). Se você não souber identificar, o ideal seria capturar e levar ela junto ao hospital (viva ou morta). Normalmente a captura é arriscada, por isso uma alternativa é fotografar ou filmar o animal (pode ser com o celular mesmo!). Isso já irá ajudar na identificação do gênero para que a vítima receba o soro mais apropriado.


Tipos de Cobras Peçonhentas

Como comentamos antes, há quatro tipos de cobras peçonhentas que podem causar acidentes no Brasil:

Jararacas

São cobras do gênero Bothrops. Existem diversas espécies de Jararacas e elas são facilmente encontradas por todo o país. Todas são peçonhentas e as espécies mais causadoras de acidentes no Brasil. Se não houver aplicação de soro, a taxa de mortalidade é estimada em 7%. Mas, com uso de soro antiofídico e tratamentos, a taxa pode ser reduzida para 0,5% a 3%. Os acidentes causados por cobras do gênero Bothrops são chamados Acidentes Botrópico.

Identificação: Como existem muitas espécies de Jararacas, a variação nos padrões de escamas e no tamanho pode variar muito (de 70 cm a 2 m de comprimento). Geralmente o corpo tem tonalidades de bege, com umas marcações em forma de “X” em preto ou marrom, mas há variações nos padrões geométricos e cores.

Sintomas: A picada causa dor imediata e inchaço no local, às vezes com manchas arroxeadas e sangramento pelos orifícios da picada. Pode ocorrer ainda sangramento bocal (nas gengivas) e, se a busca apelo atendimento não for rápida, a vitima pode expelir sangue também pela urina. Pode levar a complicações como insuficiência renal e necrose no local da picada.


Cascavel

São cobras do gênero Crotalus e Sistrurus. Popularmente conhecidas por terem um “chocalho” no final da cauda. São encontradas em toda América, preferencialmente em regiões secas, áreas pedregosas e arenosas. A cascavel só ataca se sentir-se ameaçada, primeiramente ela usa o chocalho para afastar os predadores. Os acidentes causados por cobras do gênero Crotalus são chamados Acidente Crotálico.

Identificação: As cascavéis costumam ser fáceis de serem identificadas pois possuem um chocalho característico na cauda, que é agitado quando se sentem ameaçadas. Os guizos produzem um som característico de chocalho.

Sintomas: sensação de formigamento no local da picada, dificuldade de manter os olhos abertos, visão turva ou dupla, dores musculares seguido de contrações musculares generalizadas e urina escura.


Surucucu

São cobras do gênero Lachesis, as maiores cobras da América Latina, podendo chegar a 4m de comprimento. São encontradas principalmente na Amazônia e algumas áreas de Mata Atlântica (da Paraíba até o Norte do Rio de Janeiro). Os acidentes causados por cobras do gênero Lachesis são chamados Acidente Laquético, no Brasil eles são raros já que essas cobras costumam habitar zonas com não muito povoadas.

Identificação:  As surucucus tem o corpo amarelado/alaranjado com desenhos escuros (ou pretos) bem marcados. É possível identificar também pela cauda que possui escamas eriçadas. Diferente da Cascavel, ela não  tem guizos, mas é capaz de emitir sons, esfregando contra a folhagem um pequeno osso que possui na extremidade da cauda. Ela possui uma das maiores presas de inoculação.

Sintomas: Os sintomas são iguais aos do Acidente Botrópico (da Jararaca), descrito acima com dor, inchaço no local, manchas arroxeadas, sangramento pelos orifícios da picada, sangramentos bocal (nas gengivas) e também pela urina. Mas além do que já havia sido descrito, esse tipo de peçonha pode causar ainda vômitos, diarréia e queda da pressão arterial, podendo levar à morte se o atendimento correto não for feito imediatamente.


Cobra Coral Verdadeira

É uma espécie de cobra extremamente venenosa, suas cores características facilitam a identificação. São cobras de hábitos noturnos, que costumam se abrigar sob folhas, galhos, pedras, buracos ou dentro de troncos em decomposição. Não são agressivas, só atacam quando se sentem ameaçadas. Seu veneno é forte e de ação rápida. Os acidentes causados pela Cobra Coral Verdadeira são chamados Acidente Elapídico. 

Identificação: A Coral apresenta coloração em anéis vermelhos, pretos e brancos (ou amarelos), em sua circunferência. Para identificar se a cobra é verdadeira ou falsa, tem uma regra fácil: Na coral verdadeira os anéis vermelhos não encostam nos anéis de cor preta, sempre há um anel branco ou amarelo entre as duas cores. Já na falsa o vermelho encosta no preto. Veja nas imagens abaixo:

Cobra Coral Verdadeira

 

À esquerda Coral Verdadeira, à direita a Coral Falsa

Vale comentar que a cobra coral falsa não é peçonhenta, na verdade ela nem mesmo pertence ao mesmo gênero ou família.

E para complicar, ainda existem corais pretas com aneis brancos (Micrurus albicinctus) cujo os mímicos (Atractus latifrons) são identicos em relação a coloração. E, em casos raros, existem corais com o dorso completamente pretos (Leptomicrurus sp.). – Contribuição Diego Cavalheri

Sintomas: no local da picada não se observa alteração importante, os sintomas do envenenamento caracterizam-se por visão turva ou dupla e aspecto sonolento.


Como prevenir

É importante comentar que a maioria das cobras só ataca um ser humano quando se sente ameaçada. Por isso ao avistar uma cobra, desvie do caminho dela, deixando ela seguir o caminho dela e você o seu.

Além disso vale também seguir as dicas abaixo:

– Use sempre calçado fechado e calças compridas. Se estiver em um local que é conhecido por ter cobras use botas de cano alto ou perneiras para proteger a parte de baixo das pernas.

– Preste atenção onde coloca as mãos quando for se apoiar para pegar impulso ou até mesmo na hora do descanso.

– Não mexa com as cobras, mesmo que estejam ou pareçam mortas. Ainda assim, elas podem injetar veneno.

– Se você deixar seus sapatos fora da barraca, antes de calçá-lo, certifique-se de que não tem alguma intrusa se abrigando dentro dele. Cobras gostam de se abrigar em locais quentes, escuros e úmidos, exatamente como sua bota ficará após uma caminhada. 

– Procure limpar o local onde irá montar a sua barraca, tirando gravetos, folhas mortas, cascas de árvores. As cobras e outros animais peçonhentos costumam ficar escondidos nesses locais durante o dia para à noite sair para explorar. Faça essa limpeza com cuidado, pode ter uma cobra escondida embaixo de pedras e troncos.

– Nunca, jamais deixe a porta da barraca aberta especialmente de noite quando a maior parte das cobras está ativa.


Primeiros socorros

O que fazer em caso de picadas por Cobra Venenosa:

– Lavar o local da picada apenas com água, sabão ou soro fisiológico.

– Manter o paciente deitado e o mais calmo possível, porque agitado o sangue se espalha mais rápido e o veneno também.

– Manter o paciente hidratado, dando pequenos goles de água a ele.

– Procurar o serviço médico o mais rápido possível, como sempre frisamos somente médicos podem prescrever um medicamento a uma vitima de qualquer acidente.

– Se possível, levar o animal para identificação (morto ou vivo). Se não for possível filme ou fotografe. A identificação do animal, por uma pessoa capacitada faz com que o soro correto seja aplicado já que cada cobra precisa de um soro diferente.

O que NÃO fazer  em um atendimento de Primeiros Socorros.

– Não faça sucção do veneno, porque isso é mito.

– Não faça torniquete ou garrote.

– Não corte o local da picada.

– Não coloquer folhas, pó de café ou outros contaminantes na ferida.

– Não ofereça bebidas alcoólicas à vítima.

– Não dê qualquer medicamento à vítima.


Procure um hospital!

O mais importante, em qualquer situação de picada de animais peçonhentos, é deslocar a vítima o mais rápido possível para o hospital, para que ela possa receber o soro adequado de acordo com o tipo de peçonha da cobra.

 Mais informações

Se você se interessa pelo assunto, confere a dica do Blog Tocandira sobre o Livro “Serpentes Peçonhentas e Acidentes Ofídicos No Brasil“.


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  • Rosana

    Marcelo. Aprendi muito hoje com seus artigos sobre ‘Primeiros Socorros’. Li todos! Foram dicas simples, mas muito úteis. É muito bom saber que existem pessoas como você, boas, abnegadas, honestas, que se preocupam em ajudar, em passar coisas boas para os outros. Parabéns! E obrigada!

  • Diego Cavalheri

    Marcelo, tudo bem ? Primeiramente parabéns pelo artigo, bem ilustrado e com bastante informação. Contudo, pude trabalhar com serpentes por alguns anos e acho bacana destacar dois pontos. No Brasil, temos algumas espécies conhecidas como “semi-peçonhentas” (opistóglifas), com dentes inoculadores no fundo da boca. Na maioria dos casos, mesmo que uma espécie desta chegue a morder, não causa complicações médicas, porém, temos alguns casos, dependendo da espécie e da reação da pessoa, em que foi necessário intervenção médica para conter alguns dos sintomas, portanto, sugiro sempre uma atenção cuidadosa, mesmo quando não se trata de uma das espécies que citou. O outro ponto seria devido as corais. Esse grupo é muito complicado e sua identificação não é simples assim. Existem corais pretas com aneis brancos (Micrurus albicinctus) cujo os mímicos (Atractus latifrons) são IDENTICOS em relação a coloração. E, em casos raros, existem corais com o dorso completamente pretos (Leptomicrurus sp.).

    Bom, achei interessante compartilhar este conhecimento, já que aprendi tantas coisas nesse blog. Fiquem bem e abraços

    • Olá Diego,
      Obrigado pelos seus comentários e por compartilhar seu conhecimento!
      Vou complementar o post com algumas informações que você passou, ok?
      Abraços!

      • Luiz Flavio Brito

        Ola, só uma correção, não existe regra fácil com coral!!!
        Você diz que anéis pretos não se juntam com os vermelhos e isso esta extremamente errado… da uma olhada nas especies M. ibiboboca, M. lemniscatus, M. surinamensis, M. frontalis.. e varias outras.

  • Ann

    Gostei muito do artigo! Tenho uma pergunta. Moro numa cidade pequena em Sao Paulo- Jarinu. Ja encontramos jararacas e cascaveis em nosso terreno. No case de picadas deveriamos procurar um hospital especifico ou todos os hospitais tem o remedio certo ?

    • Pois é, infelizmente nem todos hospitais tem o soro… mas o melhor a fazer é procurar o hospital mais perto de qualquer forma, eles devem saber informar para onde encaminhar na região.

  • Rodrigo

    ola Marcelo obrigado por compartilhar…uma pergunta…quando uma pessoa adulta e’ picada por uma jararaca ou coral verdadeira e esta’ longe do proximo hospital…quanto tempo ela pode aguentar sem atendimento ou soro ate’ chegar ao hospital que tenha o tipo certo de medicaçao??

  • Lucas Dornelas

    Estancar o sangue, evitando a perca de sangue, ou deixar escorrer para que possa diminuir o veneno? Impedir a passagem de sangue amarrando algo como uma blusa, corda, elástico…(exemplo: a cobra pica a ponta do dedo, devo amarrar algo no encontro do dedo com a mão, para impedir a circulação sanguínea e que o veneno se espalhe)? Quanto tempo a vitima tem para chegar no hospital?