Esta história foi uma das finalistas do Concurso Cultural Campista Escritor.

Ela encerrou o período de votalão popular com 143 votos.

 


Local da história: Entre Guaporé e Muçum/RS

Data da história: 22 a 24 de fevereiro de 2013

Enviada por: Maurício Ariza

Para quem não conhece, a Ferrovia do Trigo é um dos destinos de trekking mais popular do Rio Grande do Sul. A travessia é normalmente feita entre as cidades de Muçum e Guaporé, um percurso nos trilhos do trem com pouco menos de 50 km, atravessando 22 túneis e 20 viadutos ferroviários, dentre eles o V13, o mais alto viaduto ferroviário da América Latina, com 143 metros de altura. Mas enfim, vamos aos fatos. A viagem já começou de azarão. O grupo original, que seria de 10 pessoas, na última hora terminou em dois. O ônibus para Guaporé sairia da rodoviária de Porto Alegre às 18:30, sendo que eu cheguei lá aproximadamente 18:27, meu colega me esperava nervoso já. Chegamos ao nosso destino após três horas de viagem. A cidade era maior do que eu imaginava. Passamos a noite em um hotelzinho, guardado por um senhor bastante simpático, a quem eu precisei ensinar a utilizar a máquina de cartões haha. Pela manhã, logo cedo, compramos alguns últimos mantimentos e saímos em direção aos trilhos.

Aquele seria (pelo menos pra mim!) o primeiro trekking de maior distância. Planejávamos a travessia em 3 dias, para irmos com mais calma. Primeiro dia de caminhada, empolgação total. A euforia de atravessar o primeiro túnel era única. Dentro deles, o breu é total, fica difícil sem ter uma lanterna.

No primeiro dia já enfrentamos os dois maiores desafios da travessia. O primeiro deles, o viaduto da Mula Preta, com 360 metros de extensão, sendo que ele não possui fundo nem paredes laterais, caminha-se apenas sobre os dormentes numa altura de 98 metros. Adrenalina total, vertigem. Impossível não lembrar daquele clássico da Sessão da Tarde, “Conta Comigo”, na cena que os garotos atravessam um viaduto nesse estilo. O segundo, um túnel com aproximadamente 2 km de extensão. O ar chega a ficar pesado. Levamos 40 minutos para atravessá-lo, foi um prazer enxergar a luz do sol novamente no final. Na saída dele, montamos acampamento e tomamos banho num riacho. Naquela madrugada, vimos o primeiro trem, com aproximadamente 100 vagões.

O segundo dia foi o mais puxado. Aí que a inexperiência pesou. Excesso de equipamento, muito excesso de comida. Peso 65 kg, e estava com uma carga total de 20 kg ou mais, nada recomendado. Caminhar nos trilhos é cansativo, os dormentes cadenciam passos curtos, e o cascalho mói a musculatura. O sol estava muito forte nesse dia, castigando o corpo. Aí tivemos o ponto alto da viagem. Por volta do meio-dia, atravessávamos o último túnel antes do V13. Foi a primeira vez que cruzamos por pessoas, que iam tomar banho nas cachoeiras do percurso. Andávamos bem tranquilos, até ouvirmos um barulho alto. Paramos. Seria o trem? Os pelos eriçam no braço. Abaixei-me e coloquei a mão sobre os dormentes. Senti uma vibração. O barulho ficava mais alto. Quando levantei os olhos, começava a enxergar uma luz de farol na curva do túnel. Virei para o meu colega e só gritei “Corre!”. Esquecemos a dor, o peso das mochilas, o escuro, e saímos desesperados até um dos abrigos. Máquinas fotográficas em punho, e para a nossa surpresa, avistamos dois cidadãos em suas motos, fazendo o maior barulho pelo túnel. No bom popular gauchês, aqueles dois mereciam uma tunda de laço. Recuperados do susto, retomamos o caminho. Esse trecho após o V13 era o mais exposto ao sol. A água ia acabando, e nada de encontrarmos outras fontes no caminho. Começamos a ficar apreensivos. A tarde ia passando, e a água acabando. Após uma hora de caminhada com cantis secos, a preocupação ficou mais saliente. Não encontrávamos mais nenhuma estrada que saísse dos trilhos. Olhávamos para baixo, e enxergávamos o rio Guaporé suntuoso correndo próximo aos sítios do pé do morro. Faltavam aproximadamente 8 km apenas para o final. As gargantas já secas, o corpo extremamente cansado, resolvemos tomar uma decisão drástica. Pegamos o facão na mochila e fomos abrindo trilho no mato, a fim de descer o morro. Após uns 20 minutos de empreitada, alcançamos um canavial. As folhas dos pés de cana queimavam e cortavam os braços e pernas. Foi uma travessia interminável, e um prazer único quando chegamos na beira da estrada. Um senhor em frente a uma casa nos olhava com uma cara impossível de descrever. Fico imaginando a cena que ele viu e começo a rir sozinho. Ele nos deu água bem gelada, um alívio. Montamos acampamento com os últimos raios de sol, e entramos no rio. Acho que ficamos quase uma hora imóveis na água, relaxando. Desmaiei na cama aquela noite. Logo cedo, levantamos acampamento e retomamos viagem. Não conseguimos subir pelos trilhos, seguimos pela estrada de chão, que além de ser um trajeto mais longo, era rica em subidas e descidas. Foi muito cansativo. Finalmente chegamos a Muçum, bebemos um refrigerante de cola (sem merchandising haha) estupidamente gelado, e ficamos esperando o ônibus pra Porto Alegre. Cansados, aliviados, mas nos sentíamos desafiados a voltar e concluir o percurso nos trilhos. A Ferrovia é uma experiência única. Quem quiser fazer a travessia, vale a pena, e não deixe de me convidar!

 


Confira as outras histórias finalistas do Concurso Cultural Campista Escritor:

– Bola de meia na feijoada, um tempero à parte!, por Leonice Ventorini de Morais

– Rumbo General Sur, por Thiago Fernandes de Oliveira



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