Esta história foi uma das finalistas do Concurso Cultural Campista Escritor.

Ela encerrou o período de votalão popular com 244 votos e foi a vencedora do concurso!


Local da história: Puerto Williams, Isla Navarino, Chile.

Data da história: Dezembro/2012

Enviada por: Thiago Fernandes de Oliveira

Primeiro mochilão, Patagônia, Terra do Fogo e um pouco mais além… E foi justamente nesse pouco mais além que me dei mal…

Minha grande ideia era passar a virada de ano 2012/2013 em uma estação de rádio abandonada, na baía Wulaia, na Ilha de Navarino, mais ao sul que Ushuaia. Os argentinos chamam Ushuaia de “El fin del Mundo”, e para dar o troco, os chilenos chamam Puerto Williams (única cidade da ilha) de “Más allá del fin del Mundo”. Seria algo épico na minha concepção.

Cheguei dia 27 de dezembro pouco depois das 22h na ilha, após uma viagem de navio de 28 horas desde Punta Arenas, sem ter hostel agendado e sem conhecer absolutamente nada da cidade, mas conheci um senhor ali no desembarque que me indicou um lugar. Nos dias 28 e 29, conheci a cidade e visitei Porto Toro, o povoado mais austral do mundo, além de providenciar transporte para o início da trilha para Wulaia, já que a mesma fica a 35 km da cidade. Sei que há duas trilhas para a rádio estação: uma de dois dias e outra de cinco dias. Meu plano era ir pela menor e depois voltar pela maior. Como o prazo estava apertado para o réveillon, dia 30 iniciei a trilha, pois em teoria daria tudo certo… Ahhhhh doce teoria… Era umas 10 horas da manhã, botei a mochila nas costas e me fui. Tudo que eu tinha era um pequeno guia impresso, que indicava o caminho por pontos, montanhas no horizonte e marcas nas árvores. Essa trilha é composta por 15 marcações, chamados “hitos”, cerca de 18 km de extensão apenas, e o guia estimava 8 horas de caminhada. Enfim, iniciei a trilha tranquilamente, vi marcas nas árvores e fui seguindo. Em determinada hora, achei uma árvore caída com o número 3 escrito, passei batido pelos hitos 1 e 2, mas tudo bem. Caminhei seguindo o guia impresso, até chegar a um rio, onde o rastro da trilha acabou. O guia não falava nada em atravessar rio, nada mesmo… Aí voltei, procurei, procurei e procurei de novo, mas nada de achar o número 4. Desiludido, resolvi voltar, foi quando vi um pequeno poste no chão, no meio de uma grama alta… Me aproximei e achei um número 4, ufa! Coloquei o poste num lugar visível para os próximos trilheiros e prossegui. Achei o hito 5, já era umas 13h, parei e comi uma pizza que o dono do hostel que fiquei fez pra mim, cara muito gente fina por sinal. Terminei o almoço e parti de novo, agora o trajeto era no meio do bosque (até então era campo aberto), achei uma marca bem no início, falando para prosseguir em frente, e foi o que fiz. No entanto logo em seguida as marcas sumiram. Voltei, procurei de novo e nada… Mas eu não estava a fim de voltar, afinal eu iria acampar no hito 6, era 1 hora de caminhada segundo o guia. Peguei o tal guia e o mesmo indicava seguir um “rumbo general sur”, e foi o que fiz, peguei minha bússola e fui… Cara, que bobeira minha! Segui sem ver marcas, somente fui com a bússola apontando pro sul, mas o terreno ficou cada vez mais complicado, o bosque cada vez mais fechado, cada vez mais eu tinha que contornar lagunas de castor, e resultado? ME PERDI!!! Simplesmente não sabia como voltar, eu tava perdido mesmo! Ainda eu tinha ouvido várias histórias sobre os “baguales”, que são os animais selvagens da ilha, em especial os “perros baguales”, que são os cães que fugiam da cidade e viravam selvagens, inclusive com relatos de ataques a pessoas no interior da ilha… Mas tudo bem, eu tinha que seguir, o bom do verão patagônico é que escurece só às 23h, eu tinha bastante tempo pra me achar de novo. Quanto mais eu caminhava, mais apreensivo eu ficava; eu tinha comida pra 15 dias na mochila (sim, pasmem!), mas aquela sensação de estar totalmente perdido, mais perto da Antártica do que de casa, uma experiência até então inédita pra mim, sozinho ainda… Foi tenso. Prossegui pulando árvores caídas, caindo em represas de castor, vendo ossadas de animais vítimas dos perros… Até que em determinado momento cheguei a uma lagoa enorme, e na beira dele pegadas ainda recentes dos cachorros… Dei uma olhada e não tinha como contornar a lagoa, então tive a brilhante ideia de seguir o curso do rio que a lagoa desaguava, afinal, ele teria que sair no mar, certo? ERRADO! Segui o curso do rio por cerca de meia hora, até que o danado terminava numa imensa represa de castor, e após, um enorme charco… Ou seja, fiquei ainda mais perdido!!! Nessa altura, eu caminhava 10 minutos, parava, olhava pros lados e gritava “ayuda”, “help”, ”estoy perdido”, entre outros… Óbvio que em vão, praticamente ninguém faz essas trilhas lá na ilha, só os mais aventureiros… E que aventura estava sendo. Resolvi parar e pensar – além de dar um descanso para as pernas. Puerto Williams e qualquer civilização ficavam ao Norte, de frente para Ushuaia, então minhas melhores chances eram seguir pro Norte. Cheguei a cogitar ir para o Oeste, que era onde estava a baía Wulaia, mas considerei que minha melhor chance era ir para o Norte mesmo, e foi o que fiz. Seguindo minha agora inseparável bússola, caminhei na direção da flecha, novamente pulando árvores e me atolando nos banhados, mas logo achei uma área mais aberta, um alívio, diga-se de passagem; caminhar entre árvores muito próximas impede a visão ao longe, e como tudo parece igual, só facilita se perder ainda mais. Olhar de cima nessas horas é a melhor opção, então subi num morro dessa área aberta, e avistei ao norte outro morro um pouco mais alto, segui até ele, subi novamente e eureca, água a vista!! Consegui ver o Canal Beagle, a faixa de água que separa Argentina e Chile. Distante vi uma pequena embarcação, mas estava muito longe, nem adiantaria fazer qualquer sinal mesmo. Lá de cima tracei uma linha imaginária até a costa, tentando achar a melhor rota, porém não havia melhor rota… Era bosque, uma clareira, bosque, uma enorme lago, e mais bosque… Isso era umas 18h, imaginei que levaria umas 2 horas pra chegar até a costa, puxei um bom ar e fui. Já na saída pisei em falso e caí de cara num arbusto cheio de espinhos, mas naquela altura era o de menos, só queria acabar com aquela sensação de estar perdido. Bosque vai, bosque vem… Centenas de enfiadas de pé (e perna) na lama, ouvi um barulho alto no mato, me virei imediatamente feliz da vida achando que era alguém… Era uma vaca selvagem – sim, elas existem na ilha –, era grande, dei uns gritos e ela foi embora, e pude prosseguir minha caminhada. Na minha frente agora aquela grande lagoa (esperança de encontrar alguém tinha ficado para trás junto com a vaca), fui pela direita, mas o caminho era ruim, fui pela esquerda, o caminho era péssimo, então fui pelo meio mesmo, onde tinham algumas árvores caídas, fui me equilibrando, caindo algumas vezes, mas consegui atravessar. Ainda faltava uma parte de bosque, caminhei muito entre árvores iguais, sempre rumo norte, e de repente subo uma pequena inclinação e o bosque vira uma clareira com pequenos arbustos, e a uns 200 metros dali, o Canal Beagle e uma pequena estrada. Enfim “em casa”.

Claro que não terminava aí; era 20h já, eu havia caminhado 10 horas direto praticamente, num terreno muito complicado, eu estava exausto, mas sabia que o início da trilha era na estrada, junto a Fazenda Lum. Eu queria era acampar na fazenda, e tentar de novo no outro dia, afinal, o guia falava em 8h de caminhada, daria pra fazer num dia “tranquilamente“. Eu não sabia se eu estava perto da fazenda ou não, então resolvi caminhar para a esquerda. Cerca de 20 minutos depois avistei fumaça, mais um pouco e vi uma casinha, enfim civilização. Conversei com uma mulher que ali estava, expliquei o ocorrido e perguntei onde eu estava; ali era a Fazenda Santa Rosa, que ficava a 2 km da Fazenda Lum. Agradeci a conversa, e saí meio chateado por nem uma água ela ter me oferecido, mas tudo bem, em pouco tempo eu estaria de volta pra trilha certa. No caminho comecei a lembrar da situação, e pensei que eu poderia ter me perdido feio, imaginei que poderia ter voltado num caixão pra casa, não nego, chorei de alegria por estar bem… Mais algum tempo de caminhada e logo avistei a ponte que fica em frente à Fazenda Lum, fiz um atalho porque a estrada fazia uma volta muito grande, atravessei a ponte, entrei na fazenda e fui trocar uma ideia com o casal que morava ali, Seu José e a Dona Maria. Seu José me atendeu, falava um espanhol carregado de sotaque, praticamente impossível de entender, ainda mais eu estando cansado, mas consegui explicar a situação e pedi um canto pra armar minha barraca dentro da propriedade dele. Muito atencioso, ele falou que eu podia dormir num quartinho que ele tinha ali. Era tudo que eu queria ouvir, tudo que eu queria era desmaiar em algum lugar e recuperar a energia! Antes de ir dormir, porém, Seu José me convidou para jantar, pois achou que eu estava morrendo de fome (na real não estava, mas como ele insistiu, aceitei), ele me deu um pedaço de carne e alguns pães. Nesse momento vi que a casa era muito simples, eles não tinham muitos recursos, mas faziam questão de ajudar. Enquanto comia, conversamos sobre a trilha. Seu José me falou que muita gente se perdia ali, que era impossível fazer sem GPS, falei que eu não tinha nem mapa, e demos boas gargalhadas. Agradeci muito toda ajuda e fui dormir, feliz da vida por conhecer gente tão legal e solidária. No outro dia, às 8h eu já estava recomeçando a trilha. Por incrível que pareça, esse segundo dia foi tão ruim quanto o primeiro, mas essa é uma história para outro dia…

Lagoa que não consegui contornar e decidi começar a seguir o curso do seu deságue.

 

Momento mágico que encontrei a estradinha de terra… Essa é a cara da felicidade sim! Mas com um pouco de exaustão…

 

Caminho para a Fazenda Lum!


Confira as outras histórias finalistas do Concurso Cultural Campista Escritor:

– Trekking na Ferrovia do Trigo, por Maurício Ariza

– Bola de meia na feijoada, um tempero à parte!, por Leonice Ventorini de Morais



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