Local da história: Camping da Croa, Praia de Jurerê, Florianópolis / SC

Data da história: Ao longo de 20 anos.

Enviada por: José Antonio Torelly Campello

Nas longínquas décadas de 80 e 90 num camping de Jurerê (Suvaco das cobras, hoje Marina da Croa) curtíamos nossas férias, por vezes seguidas, todos os verões. Tínhamos praticamente os 20 m² reservados neste período. A ex-proprietária, carioca, sempre nos aguardava com novidades e uma ou outra melhoria implantada entre um ano e o seguinte. A família no início tinha uma barraca para cinco pessoas, o quarto do casal e o das crianças (Fernando, Luciana e Luiza). Mais tarde as barracas começaram a aumentar embora o número de pessoas continuasse o mesmo. No final desta fase mágica de nossas férias despontavam 4 barracas lado a lado com os aficionados filhos, apaixonados protagonistas, cada um acampado na sua.

Desfrutávamos ali os melhores dias do verão catarinense sob uma paisagem bela de tirar o fôlegoe de matar de inveja os veranistas das praias gaúchas. Ao descer a visão pelo verde exuberante da serra geral no final da encosta troca-se a sensação de calma e paz pela da aventura e sedução que inspira a gigantesca massa líquida azul capaz de nos arrancar da segurança da terra e lançar-nos em explorações oceânicas. Mais acima, o céu, o sol e o vento equilibram essas tendências antagônicas distribuindo e mesclando dias ensolarados com nublados e chuvosos, sugerindo proveitosas leituras com tópicos de aventuras náuticas. Sob estes cenários tínhamos naquela cabeceira de enseada umas das melhor vistas da praia que um cidadão urbano, amante do mar poderia imaginar. Soma-se a isto um clube náutico com sua dinâmica operacional em andamento, a chegada e partida de barcos, veleiros e lanchas forasteiras, famílias comportadas e a algazarra de convidados alegres embarcando em grandes yates, desfile de escunas turísticas e até apresentação de curiosos golfinhos próximo das margens, sem falar da possibilidade de banho a qualquer hora em águas calientes e azuis. Dormíamos todas as noite escutando o marulhar das ondas nem sempre calmas e lânguidas, mas também enérgicas distribuindo palmadas contra a areia da praia. Muitas vezes recebíamos com prazer visitas de amigos e familiares que vinham desfrutar deste encantamento que durava normalmente 10 dias por temporada.

Neste ambiente paradisíaco uma visita forasteira no camping, sempre nos chamava a atenção e a cada ano era mais esperada, mas ao longo do tempo foi rareando às minguas. Ela se apresentava adornada por um possante motor -home de placas negras, da Argentina, carregado até o bagageiro alcançado por escadas e finalizado por um reboque conduzindo um sonho de desejo de todo velejador: uma jóia de veleiro de 19 pés cabinado. um verdadeiro esportivo regateiro, projetado pelo famosos projetista Nestor Volker. Depois de acomodado numa vaga do camping, descia dele um senhor da 3ª idade esportivo de cabelos brancos, uma mulher mais jovem e um cachorrinho peludinho branco.

Estes eram os 3 personagens esperados que completavam o ambiente social e exótico do camping. Por muitos anos tivemos esta companhia inspiradora. Era um modelo do que gostaríamos de seguir quando velhos. Na verdade pouco os víamos, pois de manhã lá pelas 9:00h já estavam na água e invariavelmente iam os 2 nadando com uma geladeira a reboque onde se instalava o cãozinho ou de inflável até o veleiro ancorado em frente ao camping, subiam pela popa descarregavam os víveres na cabine, preparavam o barco, içavam as velas e partiam para o mar. Controlava-os até desaparecerem na direção do continente na Armação da Piedade, Gov. Celso Ramos e Ganchos. Só voltavam à tardinha deixando um monte de interrogações a este observador. Repetiam estes passeios periódicos independente do tempo bom ou ruim. Eram misteriosos e constantes nestas travessias diárias. No final da década de 90 começaram a rarear suas presenças no camping. A dona do Camping informou que ele bebia bastante e andava adoentado. O camping perdeu um atrativo muito apreciado e exótico. Nesta época comprei um veleiro pequeno e com o Fernando, meu filho e a família, passamos a dar uns bordejos no mar de Jurerê no verão, inclusive visitando Armação da Piedade. Só então vimos como era difícil transportar o reboque e o manuseio que implicava em colocar e tirar o barco da água e, no entanto, nossos personagens vinham da Argentina só os dois com tudo aquilo nas costas.

Hoje tenho um veleiro muito semelhante em tamanho e do mesmo Projetista Argentino, Nestor Volker, que uso para fazer as regatas no Guaíba. Divirto-me muito e de vez em quando vem-me a cabeça, aquelas cenas e tento imaginar o quanto elas teriam influenciado nas minhas atividades esportivas de agora. Seriam inspiração das férias daqueles inesquecíveis acampamentos de outrora?

Porto Alegre, 31 de outubro de 2012
José Antônio Torelly Campello


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