Local da história: Pé do Pico das Almas, Chapada Diamantina, Rio de Contas, Bahia, Brasil

Data da história: Novembro/2012

Enviada por: Willy Leão Barros

Era pra ser só mais um feriado comum, sem muitas expectativas. Afinal é mais uma viagem pra Chapada Diamantina, quintal de casa. Amigo, um acampamento nunca é comum ou só mais uma viagem.

Não fizemos rapel, nem saltamos de uma rocha rumo ao abismo ou passamos dias em uma mata fechada só com uma bússola. Apenas saímos do “conformismo e conservadorismo” (guardem essas palavras).

Tudo começou…

Na verdade, já começou há muito tempo, não existe mais essa introdução. Feriado à vista, o nervo apita: hora de pôr a mochila nas costas! ‘Tamos no vício arretado! Novembro é aquele mês do ano que deveria ser enforcado… Passou outubro o pique acaba e só conseguimos enxergar dezembro e as tais férias festas de fim de ano, cada um do seu modo. Pra completar, aqui, em especial no ano de 2012, novembro foi o mês oficial dos feriados prolongados: dia 02 finados, dia 09 aniversário da cidade e 15 proclamação da República, se não me engano. Não me crucifiquem se errei os motivos, porque na verdade é para isso que eles dão feriado: para a gente se esquecer do que aconteceu! Como esquecer é meio depressivo, um bom mochileiro vai em busca de recordações. Então vamos matar finados em RIO DE CONTAS – CHAPADA DIAMANTINA.

A ideia inicial era eu (Willy) ir sozinho para algum lugar na Chapada, só pra relaxar e acampar um pouco em respeito ao feriado. Mas quem tem amigos não pode andar só, então em uma conversa com Bean ele jogou a ideia de viajar pra algum lugar. As ideias bateram, hora de planejar pra onde. Digo ONDE, porque COMO já sabíamos: gastar o mínimo possível. Essa é outra ideia que uniu mais um brother na empreitada. Kiko gostou do argumento e resolveu embarcar com agente. Precisávamos de um roteiro pra fazer sem guia. Pesquisando, a melhor opção que surgiu foi subir alguns picos. Peneirando sobraram o PICO DAS ALMAS, PICO DO ITOBIRA e PICO DO BARBADO. A ideia inicial era fazer o PICO DAS ALMAS na sexta e acampar nele; no outro dia faríamos o ITOBIRA. Descartamos o PICO DO BARBADO porque estava em chamas (essa é uma longa história que merece atenção, quem sabe em outra oportunidade).

Mochila nas costas e ilusão no bolso, partiu rumo a Rio de Contas!

O ônibus sairia as 7h da matina direto da Rodoviária. Tínhamos feito compras no dia anterior e cada um iria levar a velha e guerreira farofa. Benzão resolveu incrementar e levar um arroz também, o detalhe é que pra levar quentinho foi feito na hora da partida. Alta velocidade Sem stress conseguimos chegar ao ponto seguinte da rodoviária e pegar o busão. Kikão já tinha embarcado e estava mentalizando nossa morte nosso encontro.

Teoricamente essa viagem deveria durar míseras 4 horas. Mas chegamos já passava das 12h30. Nada de almoço, resolvemos seguir caminhando e parar no meio do caminho pra comer.

Estávamos com todas as instruções anotadas. Um amigo de Rio de Contas roteirizou todo o caminho. Não tinha como errar: 1° desce na praça central, 2° caminha até a pousada São Felipe, em direção à barragem, anda 2 km até uma bifurcação, pega a direita não a reta, vai passar pela entrada da Fazenda Vaccaro rumo a um povoado. Chegando ao povoado de Brumadinho, onde os guias deixam os carros, chega-se ao pé do pico. Mas como fizemos: descemos na praça central, avistamos a Pousada São Felipe, nada de barragem, como a região está na seca achamos essa parte meio irrelevante. Não deu 2 km vimos a primeira bifurcação, é impressionante como tudo estava dando certo com a sensação de que ‘tava tudo errado. Paramos um guri de bike pra perguntar qual a direção para o Pico das Almas. “Pico de quem?” Pedimos pro outro moleque tentar explicar usando mais de três palavras “você vai, vai, vai, vai, depois que for você vira, aí volta e vai”. Quando falei mais de três palavras ele entendeu quantidade não em diversidade.

Fomos, fomos, fomos… Chegamos em outra bifurcação, a menos de 2km, seguimos a esquerda, pra variar. Entramos no quintal de umas casas, parecendo moradias doadas para os desabrigados de enchentes do Sul. Insistimos no poder da informação, perguntamos para o morador como fazíamos pra chegar na Fazenda Vaccaro: “Vaccaro, a fazenda?” – “sim, a Fazenda Vaccaro” – “ta de carro?” – “não, caminhando” – “meu Deus, corre aqui fulaaano eles querem ir andando até a fazenda Vaccaro. É loonge!” – “Longe quanto?” “Longe, longe” – “(silêncio) ¬¬” – “É uns 18 km, uma hora de carro!” Pensamos, 18 km de carro = uma hora. Este cálculo tá pior do que as informações, vamo embora… Eles provavelmente pensaram “Esse povo da cidade é excêntrico. Sai de carro de Conquista pra vim andar aqui. Ainda chama de lazer. Minha vida então deve ser férias porque faço isso todo dia!”. Andando por conta própria achamos o caminho. Incrivelmente tinha uma barragem, uma placa mandando virar à direta e uma reta que parecia ter uns 2 km. Vivendo, ouvindo e aprendendo…

carona

Alguns quilos nas costas, bota já comendo poeira, barriga vazia e pulmão alargado! Já não se ouvia barulho de cidade, carro, som, gatinha assanhada, nada. Tudo na mais perfeita vibe. E vai, vai, vai… Andamos pra caramba e sem almoçar. Colocamos na cabeça que só iríamos parar pra comer na bifurcação. 14h30 chegamos. Sentamos no portão de entrada de uma fazenda, tiramos a farofa da mochila e matamos quem estava nos matando. No caminho, entre outros assuntos, a pauta sempre voltava para a tão sonhada e planejada carona até Brumadinho. Em dias normais talvez conseguiríamos com mais facilidade, mas em um feriado, as únicas rodas que cruzavam a estrada eram as das lambretas velhas, que passavam rasgando. Sem muita esperança, já estávamos ajeitando as mochilas nas costas quando avistamos um carro vindo da esquerda. Era o carro de uma companhia elétrica que estava testando algumas fiações da região. Paramos o carro e pedimos carona. Primeiro os caras, como todos os outros, disseram que éramos loucos, estava longe pra caramba, ia começar a chover a qualquer momento e que não valia a pena, era melhor fica quetinhos em Brumadinho ouvindo “gatinha assanhada” em algum boteco. Como todas as outras vezes, demos um sorrisinho pra não contrariar e perguntamos logo por onde entrava no carro, nosso destino já é certo. Os caras puxaram as escadas, tiraram os cones e abriu uma brecha com menos de um metro pra gente entrar.  O fundo da pick-up estava cheio de fios, ferramentas e uma armação de madeira claustrofóbica que diminuiu ainda mais o espaço. Não se reclama de carona, vamo que vamo… A carona não durou mais de 5 minutos, mas foi resenha pra 5 anos. Eu fiquei no fundo, Kikão deitado sensualmente com as pernas cruzadas pra fora e Bean dobrado em dois, depois deitou. Na estrada de chão, a buracaiada sacudia o carro todo, foi só pensar na possibilidade de a porta bater que não deu outra, Bean levou uma canelada forte da porta.

Chegamos na entrada da fazenda Vaccaro. A carona acabava ali, pois os caras tinham de trabalhar. Só foi o tempo de despedir e estalar as costas que começou a chover. Deixa eu reescrever… Começou a C H O V E R, com maiúsculo mesmo. Foi chuva acumulada que o sertão não via tinha um tempo. Mariquinha demorou, mas quando abriu as portas, Sandy entrou com tudo_#furacãoéaqui. Ainda restavam bons e remotos quilômetros até o povoado, mais longínquo era o Pico das Almas. E tome chuva… A chuva não foi de todo ruim. Deu uma energizada na caminhada. Estava muito abafado antes, calor de fritar a farofa. Encaramos na resenha e fomos até o final na resenha. Mas não tem como negar que a chuva foi ficando séria, o frio foi pegando, a roupa pesando, a mochila molhando e os km só aumentando. Andamos muito até chegar ao primeiro sinal de civilização. A chuva deu uma trégua e aproveitamos para pedir informação e água pra beber na casa de um nativo. Como era de se esperar ele desencorajou total de subir no Pico das Almas ainda aquele dia. Afirmou que seria muito arriscado na chuva, que a gente já era doido o suficiente por ir andando de Rio de Contas até Brumadinho. E antes de partir deu aquele migué pra procurarmos um guia. Quaaal… Nessa trip nosso guia é Deus, #partiu.

 

Finalmente Brumadinho. Segundo as instruções que pegamos do nativo, passando a cancela da entrada, o caminho era seguir em direção ao rio. Encontramos uma das maiores figuras da viagem, Seu Dé, um velho que é um paradoxo. Ao mesmo tempo que era matuto de calça coronha, usava uma jaquetona de couro rock’n’roll. O bigode se confundia com o lábio superior, quando falava fazia um movimento ondular, parecia que estava varrendo a parte de baixo da boca. Ele foi o único que falou pra gente continuar, que iríamos conseguir acampar no pico. Seu Dé, muito doido, indicou o caminho. Com o movimento de faxina bucal eu não consegui prestar muita atenção, mesmo assim confio na memória dos companheiros e seguimos rumo ao Pico das Almas.

abastecendo no rio

 

Atravessamos o rio e desceu mais chuva. Como a seca já castigava a região como nunca antes aconteceu, ficamos com receio de desejar parar de chover. Melhor encarar os fatos e admitir que o obstáculo já estava virando ameaça.

 

Como havia dito Seu Dé, chegamos a uma casinha e deveríamos seguir à direita. O coração estava a mil, estávamos mais perto do que longe. Vencemos mais de 15km de chão e chuva. Todo mundo molhado e com frio até que o coletivo matutou a primeira hesitação do grupo: arriscar subir o Pico ou acampar ali? A verdade é que estava todo mundo fadigado e sem muito ânimo. Eu, na fissura, queria arriscar e acampar em cima do Pico. Subir na bruxaria, definitivamente, não era uma boa ideia. Claramente Kikão e Bean não estavam a fim de encarar, mas também o companheirismo não permitia que ninguém batesse o martelo. Pensei… O negócio é propor uma votação, eu voto a favor de subir, Bean vai votar em ficar e Kiko, depois de um fight interior, vai votar pra ficar. Eu pago de “vida loca”, mas no fim das contas durmo no quentinho. Os caras tão certos, não vai dar coisa boa subir esse negócio agora com neblina tapando visão de 10 metros a frente do nariz. Vamos votar? Sim – Não – Não. 2 x 1 a gente fica, uhuu ahhh!

Gritamos e nada de alguém responder. Nem cachorro doido deu sinal de guarda. Circulamos a cerca e arriscamos chamar mais uma vez. A casa estava a cara do abandono e a chuva não parava. Não deu outra, pulamos a cerca e invadimos adentramos no terreno. Buscamos ali um lugar pra armar a barraca. Aparentemente o melhor lugar seria debaixo de uma mega árvore, porque se um raio cair a gente vira notícia porque amenizava a queda d’água. Fizemos uma limpa no terreno, estendemos a barraca. Enquanto Kiko e Bean armavam acampamento, fui dar uma checada no ambiente. Rodeei a casa e, para minha surpresa, “oh!” ela tinha uma porta, e a porta tinha um cadeado. Achei peculiar a maneira como… como posso dizer… trancaram, fecharam, bloquearam haviam retirado a função de entrar da referida porta, então para melhor análise, peguei uma pedra ferramenta orgânica e tome pancada amaciei o prego que prendia o arame da fechadura. Espantosamente o arame deslizou para fora do prego e o cadeado caiu. É UM SINAL! (vozes de anjos e foco de luz). Pasmo, fui contar o milagre para os meus amigos. “Amigos, amigos venham ver! Acho que Deus quer que entremos na casa e façamos dela morada!”. Meus companheiros de espírito sensível imediatamente disseram amém, e com atitude de fé trouxeram a barraca para dentro da casa.

Foi paixão à primeira vista. A casinha estava só poeira, provavelmente alguém limpo não entrava ali há tempos. No reconhecimento de território, esbarramos em um fogão à lenha e muita madeira seca pra queimar. Outro sinal. É aqui! O feriado não poderia ficar melhor. Planos frustrados, no meio do nada, com os amigos, chuva lá fora e fogãozinho à lenha aqui dentro. Naquela semana Bean tinha aprendido a fazer cuscuz e eu beiju de tapioca. Consegue sentir o cheiro do café de luxo que se deu na sequência?

Armamos a barraca, improvisamos um varal, melhor não contar como (tem coisas que acontece na Chapada e morre na Chapada), estendemos as roupas encharcadas. Do corpo e da mochila. Descobrimos que boa parte das coisas dentro da mochila não escapou. A capinha style não é à prova de Sandy. Levei o livro 127 Horas (Aron Ralston, 2011) pra ler e quase o perco pra chuva. Acendemos o fogão à lenha e matutamos o que iríamos comer primeiro. Tirei meu fogãozinho da mochila, e Bean a obra de arte dele. E estávamos prontos pro tour gastronômico. Cháfe Café no fogo, cuscuz sem sal no prato, tapioca na mesa. Nem nos lembrávamos do velho miojão nosso de toda trip. Subimos de nível…

Bean tira a viola viajera do saco e dá pra Kiko afinar e fazer um som. À beira do fogão, com cafezinho no copo, finalmente curtindo a chuva na distância ideal. Colocamos a resenha em dia, durante boa parte da noite, até que o cansaço falou mais alto e fomos dormir. Afinal, a vida boa tem que continuar de boa no resto do feriadão.

Acampar no chão duro não é fácil. Apesar do cansaço, volta e meia acordávamos pensando que já tinha amanhecido, mas ainda era 1h da manhã. Dormiu, descansou, acordou, hora de fazer o café da manhã caprichado. Levamos pão com queijo (não me esqueci de falar da manteiga, Bean que se esqueceu de colocá-la), preparamos um suco de limão selvagem que achamos nos arredores da casa e sem pressa fomos arrumando as coisas pra partir. O cenário era tão aconchegante que por vezes esquecíamos-nos do real objetivo, o pico. Os planos já queriam ser mudados. Ficamos ali curtindo a vista, sentados na frente da casa tomando um café, tocando violão e rindo da tragédia do dia anterior. Mal começamos a viagem e já tínhamos resenha que valia para todo o resto.

Quando deu 10h da manhã, já estava tudo arrumado. Até a casa deixamos bem varrida e lenha nova pra gastar (acho que a intenção era voltar…). Na noite anterior tinha compartilhado com os caras um trecho do livro 127 Horas (página 97), na verdade uma citação que Aron faz dos escritos de Alex Supertramp (Na Natureza Selvagem):

Tantas pessoas vivem presas a circunstâncias que as deixam infelizes e ainda assim não tomam a iniciativa de mudar a sua situação porque estão condicionadas a uma vida de segurança, conformismo e conservadorismo, o que parece lhes dar uma sensação de paz de espírito, mas na realidade nada é mais prejudicial ao espírito aventureiro presente em cada ser humano do que a perspectiva de segurança no futuro. O verdadeiro sentido no âmago do espírito que vive vem dos nossos encontros com as experiências novas e por isso não existe uma alegria maior do que ter um horizonte que esteja mudando sempre, com um sol novo e diferente a cada dia.

saindo do acampamento 1

Acho que levamos isso muito a serio, ou melhor, ao pé da letra. Segurança, conformismo e conservadorismo não foi bem o caminho que resolvemos traçar pra chegar ao topo, ao objetivo. Seu Dé, muito doidiu, disse que a trilha era fácil e não demoraria mais que 2h30 de caminhada. O negócio é seguir a trilha batida, ela vai dar a volta no pico para depois começar a subir, por um trecho bem mais tranquilo e menos acidentado. Segundo ele, atravessa o rio, segue a trilha batida, beirando um muro de pedra, atravessa um curral, segue a direita, encontra um campo de flores, uma pedra erguida em cima de outra, parecendo uma porta, daí então começa a subir. Não nos CONFORMAMOS com a explicação e achamos que estávamos andando reto de mais, tudo bem que era fácil, mas não tão fácil. Fugimos da SEGURANÇA da estradinha e atravessamos o rio. Enfrentamos uns touros chifrudos pra conseguir passar a cerca. Apesar de não ver curral nenhum, achávamos que o caminho tava batendo. Até chegar a um ponto, depois de 2 horas de caminhada, que entendemos como fim da linha. Seria então a hora de subir. Tentamos subir do “ponto final”, mas estava muito íngreme, quase uma escalada pelas pedras gigantes. Voltamos um pouco e achamos um lugar pouco menos perigoso mais tranquilo de subir. Subimos de quatro boa parte, agarrando pedra, puxando mato, sem olhar pra baixo. Vencido o primeiro pico, curtimos a vista, descansamos um pouco e seguimos. De pedra em pedra, furando em cacto, chegamos até o segundo pico, um pouco mais alto. Sem parar, fomos até o topo. 360° de vista limpa. Onde o olhar alcançasse era beleza. De um lado víamos a cidade de Livramento bem longe, outro lado uma barragem, bem distante o caminho do dia anterior, em frente a casinha olhando pra gente, e logo em seguida os olhos já percorriam o caminho certo. Realmente saímos da tradição, fizemos o caminho legal, deixando o CONSERVADORISMO das velhas práticas de lado. Rimos lembrando o trecho do livro, foi uma boa maneira de justificar a burrada.

almoçando em cima do pico

Já eram 14h e, sem proferir palavras, já concordamos que ali seria o melhor lugar pra almoçar, no topo. Este pico era do lado do Das Almas, ainda tinha uma boa caminhada pela frente. Farofa pra dentro, dissolvemos um pacotinho de suco em pó na última garrafa de água mineral. Péssima ideia, porque o suco era muito ruim e ficamos apenas com algumas ml de água para o resto da jornada. Energia reabastecida, ou quase, hora de ir em frente. Descemos o pico pra subir o outro. De cima, vimos um caminho que parecia de grama batida, mas quando descemos lá era de mata um pouco alta e foi afunilando cada vez mais. Atravessamos de um pico a outro. Chegando ao Pico das Almas fomos subindo de pedra em pedra. Tiramos fotos no mirante e ficamos satisfeitos. Um olhou pro outro já concordando em não subir mais. Eram apenas mais algumas pedras até o cume, mas já estávamos andando sobre o topo. Era suficiente, dizia o cansaço. Na hora de descer, ficou a dúvida entre voltar pelo mesmo lugar ou seguir reto até acabar o pico e começar a descida. Mais uma vez, chutamos a segurança, conformismo e conservadorismo e pegamos o atalho legal, seguir reto até chegar na casinha. No começo foi tranquilo, pulando de pedra em pedra com o mato relativamente baixo. Até que eu vi uma cobra. Era cinza meio esverdeada, lembro que um guia do buracão encontrou na trilha e disse que ela não é nociva e tem medo, sempre foge. Mas o problema de medo não é com ela, é comigo. Travei na hora, mas não podia falar pra não criar o caos, ela já tinha fugido. O negócio era enganar minha mente, fazer acreditar que não vi nada. Umas tremidas, elevação da veia e vamos em frente. Parece que, pra testar a coragem do rapaz, a mata começou a fechar e a subir. Chegou uma hora que estávamos no meio do barranco com mata fechada acima da cabeça, pisando em samambaia, não via o que vinha a frente, não sabia onde estava pisando. Bean começou a correr e a abrir caminho na loucura, eu fui logo atrás. Acho que nunca ri tanto na minha vida, teoria nova: a tensão deve produzir serotonina, porque a gente começou a cair, a afundar, se cortar no meio de todo aquele mato mas não conseguia parar de correr e de rir. 

Quando vi Bean andando de costas, afundando no meio da samambaia, ouvi Kiko gritando se estava tudo bem, dei uma olhada onde a gente estava, enxerguei o geral da situação. Como diria um amigo que usa bomba: “é rir pra não chorar”. Foi dando uma dor de facão, não tínhamos forças mais, as nossas pernas estavam no automático. Quando conseguimos parar, e o sangue esfriar, percebemos que estávamos no meio do matagal, talvez em cima de um buraco, confiando na força dos ramos de uma samambaia. Kiko puxou a sua faca friamente afiada e foi abrindo caminho. Já conseguíamos ver uma casinha de adobe. Ela ia ficando maior diretamente proporcional a nossa felicidade de estar chegando. Cresceu tanto que chegamos! Toda vitória merece um troféu, o nosso foi uma bica de água geladinha da nascente. Bebemos direto do cano, enchemos as garrafas, bebemos nas garrafas, molhamos a cabeça. Quando a água gelada bateu na nuca parece que a montanha, as árvores, Seu Dé de longe, os pássaros, a casinha, o mundo sussurrou: “aaaaaaaaaaaahhhhhhhhhhh!!!!”.

Mas não tinha acabado. Ainda havia uma boa trilha pela frente. Seguimos andando. Caminho de terra batida bem mais tranquilo. Passamos pela casinha, segurando a vontade de ficar lá o resto do final de semana. Seguimos em frente em direção a Brumadinho. Não conseguiríamos chegar em Rio de Contas ainda aquele dia, então passando pelo rio antes de chegar no povoado, gastamos o tempo que restava antes de escurecer tomando um banho. Tirada a inhaca, mas vestimos a roupa suja, fomos armar acampamento em Brumadinho. Godelamos suco, água, banheiro e a paciência de Dona Ana (Donana no dialeto local).

Pra ter certeza que ela não tinha dormido, parecia que sempre nos esquecíamos de fazer alguma coisa, ou então estalava uma nova ideia e voltava na casa de Donana para perturbar. Deixamos as mochilas e as botas descansando na casa dela e fomos dormir na barraca armada debaixo de uma árvore, torcendo pra não chover. Depois daquela velha resenha noturna, o sono bateu e só abrimos o olho no outro dia com a baixaria dos passarinhos na nossa cabeça. O que a Chapada tem de calma aqueles ninhos têm de agitados, parecia programa do Ratinho. Desistimos da leseira e levantamos. Como quem não quer nada, fomos buscar as mochilas e as botas na casa de Donana, coincidentemente ela estava com o café na mesa. E educadamente perguntou se não queríamos tomar um cafezinho com biscoito. Sem dar chance de ela voltar atrás, já estávamos sentados na mesa comendo e batendo papo com um dos centenas de filhos de Donana, que formam a população daquele vilarejo. Descobrimos que Brumadinho é um condomínio familiar. Todo mundo é parente, quem não é vai acabar casando com o primo de quem é. A prosa foi boa, mas pé na estrada porque o domingão já despontou e precisamos estar em Livramento às 14h para pegar o bus.

Andamos muito, sem esperança de conseguir carona. Chegamos à mesma bifurcação do primeiro dia. Conhecemos Seu Menino, outra fuguraaaaaassa! Não entendíamos quase nada do que ele falava, mas a inocência dele tentando justificar o porquê Seu Marcos saiu de carro para Livramento pouco antes de a gente chegar, perdendo assim a carona. Perde aqui, ganha logo ali… Passou um Pampa azul, batemos o braço e ele parou. Garantimos a carona até Rio de Contas. Já muito felizes pelo feito, a vida ainda nos surpreende quando o carro arranca e acenamos para Seu Menino, ele se despede com um saudoso UHUUUUUUUU!!!!!!!!!! Kkkk #hilário.

Chegando a Rio de Contas, aprendemos que uma boa maneira de se fazer amizade é falando “áááááááágua”. Foi assim que conhecemos um senhor na praça, e batemos um papo comédia sobre chuva, meteorologia e afins. Ele continuou interagindo com outros moradores “áaaaaaaagua”, os jogadores de dama responderam “fooooooooogo”. Nem fizemos questão de esperar o resto da conversa, com certeza ele enturmou com a galera.

A caminho da casa de Evandro e Valéria, onde almoçamos e pegamos a carona para Livramento, tivemos a sorte de encontrar o senhor que cuida da famosa Igreja dos Escravos saindo do local. Perguntamos se podíamos visitar rapidamente. Ele, educado, logo nos colocou pra dentro. Linda obra de arte. Tão imponente e simples ao mesmo tempo. Como poucas catedrais mundo afora.

Almoço no bucho, carona até Livramento, agora é só esperar a hora de partir. Mas a viagem só acaba quando termina. Ainda não muito conformados, tentamos arriscar uma carona até Brumado pra aumentar o custo x benefício, já que a passagem de Brumado pra Conquista é R$ 12,00. A primeira figura que tentamos a carona foi um bebum. Perguntei se ele ia pra Brumado, ele só respondia “pra cidade” – “pra onde?” – “pra cidade”  “Brumado?” – “pra cidade” – “pra Conquista!!” – “pra cidade”. Bean e Kiko, chocados com a conversa em circulo, que não ia de nada a lugar nenhum, me tiraram da frente do carro. Acho que a cidade era aquela mesmo, e algo me diz que se fosse outra e tivéssemos entrado no carro, não estaria contando essa história aqui. Tentamos mais caronas na pista, um carro parou, abrimos a porta, apelando, mas não deu certo. Ela só queria atravessar a pista e tomou um susto com a audaciosa estratégia de ir entrando no carro dela. Chegando ao ponto de carona, tinha um senhor sentado e logo foi puxando assunto: “tão fazendo turismo ou experiência?” (as pessoas realmente surpreendem quando a problemática é interação). Bean responde com cara de não sei: “os dois”, para completar ele ainda aponta pra mim e fala “esse garoto aí é antropólogo”. O velho olha bem pra mim, não diz nada, mas só soma o short de folha + a blusa suja + a cara limpa e o óculos redondo, enruga a boca, me encara de baixo a cima e deve ter pensado: “Ahh, se meu filho vira isso. Ele leva uma surra até se consertar!”. A ideia de carona não deu em nada, voltamos para a rodoviária e pegamos o busão mesmo.

3 dias que valeram por 3 anos. Quando dizem que viajar é viver, realmente afirmam uma verdade. Todo mundo precisa viajar, sentir a distância, o cansaço, para descobrir o descanso e desfrutar de uma nova experiência. Já dizia alguém que com certeza viaja “Tudo vale a pena quando a alma não é pequena”.


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